Em 1990 a sonda Voyager tirou uma foto da Terra a uma distância de cerca de 6 bilhões de quilômetros. A ideia foi de Carl Sagan, astrônomo midiático norte americano.
Ele convenceu a NASA a virar a câmera da sonda para nosso planeta, antes que a aposentadoria do ilustre equipamento fosse decretada pelo desligamento de seu sistema de imagens.
Assim, com a imagem do minúsculo e tímido ponto azul, Sagan mostrava a todos os seres humanos, a pequenez e fragilidade de sua existência.
O mesmo ano foi marcado por transformações políticas importantes, como o fim da neurótica Guerra Fria e por fatos marcantes como a reunificação da Alemanha, a libertação de Nelson Mandela, a entrada dos Estados Unidos na Guerra do Golfo.
A Europa balançava com a unificação alemã e a estrutura soviética ruia, a insegurança se espalhava pelo ponto azul e a Voyager seguia seu curso natural predestinado.
Em terras tupiniquins, era empossado o presidente Fernando Collor de Melo, também conhecido como Caçador de Marajás.
O irônico é que o jovem Collor, no auge de seus 40 anos, era ele mesmo um senhor feudal de terras alagoanas. Mas em tempos de mídia analógica somada ao destaque dado para o “jovem promissor” nos maiores veículos de mídia impressa e televisiva do país, sua decolagem foi inevitável, sua queda também.
A crise econômica assolava o Brasil impunemente desde o fatídico Governo Sarney assim como a roubalheira e os escândalos.
Milhões de pessoas perderam suas economias num confisco de poupança e, apenas dois anos depois, Collor sofreria o primeiro impeachment da história republicana de nosso país.
Quarenta anos se passaram e muita coisa mudou por aqui. Mas observando o minúsculo ponto azul desde os confins do espaço até parece que nada mudou.
Naquela eleição, Lula com seus ideais progressistas, era o principal adversário do rapaz conservador “bem apanhado” e promissor, assim como vem sendo moldada a imagem de Flávio Bolsonaro.
George Bush, presidente republicano recém-eleito nos Estados Unidos, mostrava seu poderio ao mundo, assim como a ação atual no Iraque sob o comando do republicano Donald Trump em 2026.
Aquele período foi marcado também por uma forte aproximação diplomática e alinhamento ideológico entre Brasil e E.U.A., inspirada pela nova ordem mundial.
Collor foi visto por Bush como um líder moderno e reformista, alinhado ao neoliberalismo e ao livre-mercado. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Se a história de 13,8 bilhões de anos do universo fosse resumida a sessenta minutos (uma hora), o ser humano teria surgido apenas nos últimos segundos.
Os 40 anos recortados aqui seriam uma fração de segundo, e a história do Brasil desde sua descoberta 0,135 segundos antes do final da hora.
O ponto azul permanece lá e aos olhos da privilegiada viajante espacial nada mudou.
Do ponto de vista terreno mudaram a paisagem, os personagens, a tecnologia, a moda e os modos de falar, se expressar e de se comunicar.
Sei que minha visão metafísica pode parecer ingênua, desleixada, acomodada ou fantasiosa, mas não vou me alongar em justificativas.
Simplesmente deixo a pergunta: – no todo, o que realmente mudou?
Segue a vida, a voyager e o jogo.

Guto Araújo é analista político
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