A expansão dos veículos elétricos no Brasil começa a impactar diretamente a gestão de condomínios. Em São Paulo, a nova lei estadual que exige a previsão de pontos de recarga para veículos elétricos, somada às diretrizes recentes do Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares (CNCGBM), coloca síndicos e administradores diante de um novo desafio estrutural e financeiro.
As normas do CNCGBM já estão em vigor e estabelecem critérios rigorosos de segurança contra incêndios. Entre as exigências está a proibição do uso de tomadas comuns para recarga. A regra determina a utilização de carregadores específicos, conhecidos como modos 3 e 4.
Para edifícios novos, os projetos devem incluir infraestrutura adequada, como sistemas de ventilação, detecção de calor e dispositivos de desligamento manual acessível. Já nos condomínios antigos, a adaptação pode ocorrer de forma progressiva. Mesmo assim, é necessário apresentar laudos técnicos que comprovem a viabilidade da rede elétrica existente.
Segundo o síndico profissional Tiago Marsaioli, a combinação entre legislação estadual e normas de segurança traz mais clareza jurídica. No entanto, também revela dificuldades operacionais importantes.
“O grande desafio não é apenas técnico. Muitos edifícios antigos já operam no limite da capacidade elétrica. A instalação de uma única estação de recarga rápida pode comprometer o sistema de todo o bloco se não houver um projeto de reforço robusto”, afirma.
Ele explica que a maioria dos prédios, novos ou antigos, não suporta a instalação de vários carregadores ao mesmo tempo. Por isso, torna-se necessário implantar sistemas de gestão de recarga e balanceamento de potência, capazes de distribuir a energia de forma segura e evitar sobrecargas ou desligamentos.
Custos e adaptações em prédios antigos
Marsaioli destaca ainda que prédios com mais de 30 anos exigem análises técnicas e financeiras detalhadas. Em muitos casos, as exigências de segurança podem incluir a instalação de sprinklers ou sistemas de exaustão em garagens subterrâneas. O custo dessas adaptações costuma gerar debates entre moradores durante as assembleias.
“Nestes casos, a gestão precisa apresentar estudos técnicos que demonstrem a viabilidade ou a impossibilidade de instalação imediata, sempre respeitando a legislação”, explica.
Para o síndico, a nova lei aponta para um caminho inevitável de modernização e sustentabilidade. Ainda assim, ele alerta para a necessidade de planejamento.
“Não se trata apenas de instalar um carregador na vaga. É preciso repensar toda a infraestrutura elétrica do edifício. Em casos de incidentes com baterias de lítio, o prédio precisa ter mecanismos adequados de contenção”, diz.
O descumprimento das normas pode gerar multas e até a perda da cobertura do seguro predial.
Por isso, especialistas recomendam que condomínios realizem auditorias elétricas antes de qualquer decisão sobre a instalação de carregadores. A avaliação técnica ajuda a definir os limites da estrutura atual e a planejar possíveis ampliações.
“Hoje o síndico precisa atuar como mediador entre o desejo de modernização dos moradores e as limitações da edificação. O ideal é preparar a infraestrutura básica agora e permitir que o condomínio cresça junto com a frota elétrica, evitando reformas emergenciais e gastos inesperados no futuro”, conclui Marsaioli.