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29 DE JANEIRO DE 2026

Cidades são laboratórios para reinventar a agenda do clima

Luiz Augusto Pereira de Almeida

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Ante a falta de progressos no cumprimento do Acordo de Paris e no quesito fundamental da eliminação dos combustíveis fosseis, é importante ficar atento às recomendações do “Relatório Cidades e Ação Climática da ONU-Habitat.

O documento chama atenção para um ponto importante: ninguém que mora em áreas urbanas vai escapar dos efeitos do clima extremo.

As ondas de calor já são mais fortes, as tempestades chegam com mais violência e as secas duram mais tempo.

São bilhões de pessoas no mundo, inclusive no Brasil, que vão enfrentar riscos maiores e mais constantes.

E isso já está acontecendo e não é previsão distante. Basta lembrar dos verões cada vez mais quentes, das enchentes que paralisam cidades inteiras, ou mesmo de tufões, como o que arrasou recentemente a cidade paranaense de Rio Bonito do Iguaçu.

Porém, a crise climática não atinge todo mundo da mesma forma. Quem mora em áreas precárias, longe dos serviços públicos, em moradias frágeis ou mal localizadas sente antes e de maneira pior e mais intensa.

A desigualdade urbana vira combustível para ampliar o desastre climático.

É por isso que o relatório destaca a importância de políticas que pensem na vida real das pessoas, principalmente das mais vulneráveis. Cuidar do clima também é uma questão de justiça social.

As cidades precisam reagir. Com planejamento, investimento e boa gestão, é possível diminuir emissões, proteger a população e tornar os espaços urbanos mais seguros.

Isso passa por melhorar a infraestrutura das ruas, saneamento básico, drenagem, moradia e transporte, bem como garantir que tudo isso seja resistente às mudanças no clima.

Mas, também significa rever a forma como ocupamos o território e como desenhamos nossas cidades.

É nesse ponto que entra uma solução essencial e muitas vezes mal compreendida: o adensamento urbano.

Cidades mais adensadas, com moradia perto do transporte, dos serviços e das oportunidades de trabalho, reduzem deslocamentos, diminuem emissões, facilitam o acesso a empregos e tornam a vida urbana mais eficiente.

São Paulo, por exemplo, quando investe em adensar áreas com metrô, corredores de ônibus e infraestrutura pronta, evita que as pessoas sejam empurradas para longe, onde o transporte é caro, o acesso é mais difícil e os riscos climáticos são maiores.

É melhor crescer para cima e com qualidade do que se espalhar para longe sem estrutura.

Além disso, o relatório destaca que soluções baseadas na natureza — mais árvores, áreas verdes, parques e rios recuperados — ajudam a refrescar a cidade, melhorar o ar e reduzir enchentes.

Entretanto, tudo isso funciona melhor quando a estrutura urbana é compacta e bem conectada.

Uma cidade espalhada demais custa mais caro, polui mais e deixa as pessoas mais expostas. Quando adensada e planejada, reduz custos, aumenta eficiência e melhora a qualidade da vida.

Por fim, o relatório da ONU-Habitat lembra que falta dinheiro para tudo isso: o mundo teria de investir trilhões de dólares por ano para adaptar as cidades ao clima.

Mas, também mostra que o caminho da solução existe, e passa por cidades mais justas, mais verdes e mais compactas.

Não é apenas uma questão de salvar o planeta; é sobre viver melhor, com mais segurança, dignidade e qualidade.

Em síntese, se quisermos enfrentar a crise climática, precisamos olhar com carinho para onde tudo acontece, ou seja, as cidades, e apostar em um crescimento urbano inteligente e adensado, como São Paulo tem começado a fazer em algumas regiões.

O futuro urbano e do clima depende muito disso.

 

Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Sobloco Construtora e membro do Conselho da AELO.

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