A reflexão teve início em uma troca simples por WhatsApp.
Uma engenheira da região Sul, com experiência em obras e na gestão pública, formulou uma pergunta objetiva: metodologias técnicas mais robustas poderiam ter reduzido os vetos aplicados a emendas no Orçamento de 2026?
A indagação permaneceu. Não como provocação retórica, mas como dúvida técnica legítima.
Nos dias seguintes, ela reapareceu em conversas vindas de diferentes regiões e campos profissionais.
Engenheiros, arquitetos, gestores públicos, técnicos de controle e operadores do sistema de justiça.
Não houve articulação institucional nem debate organizado. Houve recorrência.
Quando uma questão emerge simultaneamente em ambientes técnicos, jurídicos e operacionais, costuma sinalizar não um episódio isolado, mas uma inflexão de método.
A Lei Orçamentária Anual de 2026 foi sancionada com vetos parciais a emendas, fundamentados em incompatibilidades legais e na necessidade de coerência fiscal.
O procedimento segue o rito constitucional, com possibilidade de reapreciação pelo Legislativo.
O fato, isoladamente, não é excepcional. O contexto em que ocorre, sim.
Por décadas, a administração pública brasileira operou sob um arranjo no qual a promessa antecedia o projeto.
O recurso vinha antes do detalhamento técnico, da estimativa orçamentária consistente e do adequado enquadramento licenciatório. A decisão precedia a análise; a técnica era convocada depois, para ajustar a realidade ao compromisso já anunciado.
O provisório, com o tempo, estabilizou-se como método. As consequências são conhecidas: revisões sucessivas, interrupções e baixa previsibilidade.
É nesse ambiente que os vetos precisam ser compreendidos. Não como conflito institucional, mas como efeito de um arcabouço normativo progressivamente mais exigente.
Propostas sem sustentação técnica compatível tendem a não avançar, independentemente de sua relevância política.
Esse deslocamento não é singular. Em países como Alemanha, Reino Unido, França e Canadá, a precedência do projeto sobre o recurso é pressuposto administrativo consolidado.
A política define prioridades; a técnica verifica sua viabilidade. Na ausência de projetos amadurecidos, a alocação financeira é postergada. Trata-se de método, não de penalidade.
No Brasil, essa inflexão ganha forma com a consolidação da Lei nº 14.133/2021, que reforça o planejamento como etapa estruturante das contratações públicas.
Nesse contexto, metodologias como o Building Information Modeling deixam de ser ferramentas operacionais e passam a funcionar como infraestrutura de governança, ampliando previsibilidade, rastreabilidade e coerência decisória.
Para que esse avanço não aprofunde assimetrias, o Estado precisa apoiar a capacitação técnica dos municípios menores, de modo que o método não se converta em exclusão.
O orçamento público está se tornando mais técnico. Isso não é neutro nem imediato.
Mas pode representar um avanço silencioso na qualidade das decisões administrativas.
Quando a promessa deixa de anteceder o projeto, o debate público perde velocidade, mas ganha lastro.
A política continua escolhendo caminhos; a técnica passa a medir se eles podem ser percorridos.
Talvez o desconforto atual não seja sinal de excesso de rigor, mas de ajuste histórico.
Em algum ponto, o método deixa de ser obstáculo e passa a ser proteção.
E quando o ruído se dissipa, permanecem os registros que ajudaram a compreender a mudança, não para encerrá-la, mas para torná-la inteligível.

Alessandro Lopes é arquiteto, professor mestre em Arquitetura e Urbanismo, pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes, e consultor regional do Instituto Multiplicidades
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